GT 03 - Ciências sociais e saúde: diálogos interdisciplinares
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Item Formas de financiamento de serviços de cuidado de longo prazo a idosos(2025) Zanini, Gabriel; Roland, Daniel Araújo JoãoO envelhecimento populacional tem aumentado a demanda por serviços de cuidado de longo prazo (Long-Term Care – LTC) em diversos países, o que torna necessário compreender como diferentes sistemas organizam e financiam essas políticas. O presente trabalho integra uma pesquisa em fase inicial, que será desenvolvida entre setembro de 2025 e agosto de 2026, cujo objetivo é mapear e comparar modelos de financiamento e provisão de LTC em países desenvolvidos e em desenvolvimento. Trata-se de um estudo exploratório baseado em análise documental e bibliográfica, fundamentado no projeto original e na revisão internacional apresentada por Roland, Forder e Jones (2021), que examinam alternativas de financiamento adotadas em contextos variados. A pesquisa ainda não apresenta resultados conclusivos; nesta etapa, busca-se sistematizar experiências internacionais que possam orientar debates futuros no Brasil sobre sustentabilidade financeira, desenho institucional e provisão de serviços. A investigação pretende oferecer subsídios preliminares para discussões acadêmicas e de políticas públicas sobre como estruturar mecanismos de cuidado que respondam ao rápido envelhecimento da população brasileira.Item Reconfigurando o caminho: entre metas, mídias e o cotidiano das pessoas vivendo com HIV/AIDS(2025) Verso, Lukas InOs primeiros registros de casos de HIV/AIDS no Brasil datam de mais de 40 anos. No início da epidemia, casos e óbitos foram amplamente expostos pela mídia, refletindo uma sociedade do espetáculo. A busca por um “paciente zero” estimulou o sensacionalismo e reforçou estigmas. A mídia e a ciência atribuíram esse título ao comissário canadense G.D., posteriormente retirado, revelando o caráter transnacional dos “corpos soropositivos”. A UNAIDS propõe metas e investimentos para conter a epidemia, mas, ainda que todas fossem atingidas, mais de oitocentas mil Pessoas Vivendo com HIV/AIDS (PVHA) continuaríamos dependentes da terapia antirretroviral no Brasil. Além do acesso à testagem, assistência e medicamentos, é essencial uma atenção integral à saúde e à vida, especialmente para grupos em vulnerabilizações socioambientais. Notícias sobre uma possível “cura” do HIV/AIDS, geralmente ligadas a novas tecnologias como transplantes de medula óssea, são frequentemente midiatizadas de forma sensacionalista, criando expectativas controversas e, por vezes, cruéis. Diante de disputas, metas e números, é necessário repensar os paradigmas que orientam o enfrentamento da epidemia e buscar caminhos que reduzam o sofrimento envolvido. Proponho discutir essas questões também por meio de mídias alternativas — colagens, quadrinhos e zines — que retratam o cotidiano das PVHA: a relação constante com comprimidos, exames, receitas, filas e consultas. Esses elementos compõem a complexa “caixa-preta de pandora” do HIV/AIDS e da ciência-tecnologia.Item Da escravidão à sala de parto: saúde reprodutiva de mulheres negras no Brasil e racismo obstétrico no caso Alyne Pimentel(2025) Oliveira, Thaisa Juliana Cipriano deEste estudo analisa a complexidade inerente à apreensão das experiências de gênero, corporalidade, sexualidade, parto e maternidade de mulheres negras, à luz da persistência de estruturas sociopolíticas originadas no regime escravagista patriarcal. A organização de gênero no período colonial, particularmente entre os séculos XIX e XX, consolidou práticas sistemáticas de violência sexual contra mulheres negras africanas, nas quais o estupro funcionava como mecanismo de coerção, controle e sustentação econômica do sistema escravista. Com o declínio do Tráfico Transatlântico, esses corpos passaram a ser instrumentalizados em função de seu potencial reprodutivo, concebido como estratégia para a expansão da população escravizada e, consequente, manutenção da força de trabalho. Dispositivos legais emancipatórios, como a Lei do Ventre Livre (1871), reforçaram a apropriação estatal do corpo e da capacidade reprodutiva da mulher negra, produzindo efeitos duradouros sobre a construção social do feminino negro, sobre o exercício da maternidade e sobre a formulação de direitos reprodutivos. Concomitantemente, o campo médico legitimou e operacionalizou o racismo científico por meio de manuais, teses, protocolos e discursos institucionais, consolidando um paradigma que converteu corpos negros em objetos de experimentação, intervenção e controle. Evidências historiográficas demonstram que parcela significativa dos avanços da obstetrícia brasileira a partir do século XIX foram construídas sobre tais práticas de violência estrutural. Esses elementos estruturam as iniquidades contemporâneas em saúde e contribuem para o fenômeno do Racismo Obstétrico. Nesse contexto, destaca-se o caso de Alyne Pimentel, mulher negra vitimada pelo racismo obstétrico em 2002. Assim, o estudo articula passado e presente para evidenciar como o legado escravocrata continua a moldar a saúde reprodutiva de mulheres negras no país.Item Humanizando a dignidade menstrual para mulheres em situação de rua: uma análise socioantropológica em São Paulo(2025) Cirillo, Pamella Aparecida ProtásioA menstruação é um tema historicamente marcado por tabus, silenciamentos e desigualdades de gênero. No Brasil, essa pauta tem ganhado maior visibilidade nos últimos anos, especialmente após a promulgação da Lei Federal nº 14.214/2021, regulamentada pelo Decreto nº 11.432/2023, que institui o Programa de Proteção e Promoção da Saúde e Dignidade Menstrual. A iniciativa visa garantir o acesso gratuito à absorventes higiênicos para mulheres em situação de vulnerabilidade social. Contudo, a efetividade dessa política pública ainda carece de avaliações, sobretudo no que se refere à população de mulheres em situação de rua. O presente trabalho visa analisar, sob uma perspectiva socioantropológica, as percepções e experiências de mulheres cis em situação de rua na região central da cidade de São Paulo, em relação à sua vivência menstrual e ao acesso às políticas públicas voltadas à dignidade menstrual. Para tal, a pesquisa qualitativa, realizada em 2025, incluiu etnografia em instituições vinculadas ao ativista de direitos humanos e padre, Júlio Lancellotti, e paralelamente, o estudo da implementação do programa federal por meio da avaliação de materiais oficiais e simulação de acesso ao “Meu SUS Digital”. Evidenciou-se que, apesar dos esforços das organizações locais, a pobreza menstrual persiste entre mulheres em situação de rua devido à burocracia que inviabiliza o acesso ao programa federal. Muitas mulheres não têm condições de cumprir as exigências legais, o que torna o direito impraticável. Também se percebeu que a dignidade menstrual vai além do acesso a absorventes e envolve questões estruturais, culturais e subjetivas ignoradas pelo Estado, reforçando tabus que dificultam soluções simples e eficazes, como a distribuição livre e desburocratizada de absorventes, a exemplo do que ocorre com preservativos masculinos.Item O racismo com crianças negras por meio de apelidos e xingamentos: a conjuntura das relações étnico-raciais no Brasil(2025) Borges, João Vitor da SilvaEste trabalho busca analisar como os xingamentos e apelidos racistas atravessam diferentes temporalidades e impactam a vivência de crianças negras brasileiras, além de discutir como essa especificidade do racismo na infância afeta a população negra como um todo. Com abordagem exploratória e qualitativa, fundamenta-se em revisão bibliográfica, análise de reportagens, produções audiovisuais e observações do autor. O texto busca evidenciar como o racismo estrutural se manifesta na linguagem cotidiana e reforça estigmas desde a infância, partindo da conjuntura histórica escravista até suas repercussões na cultura e mídia contemporâneas. Busca-se compreender os efeitos sociais e culturais dessas práticas linguísticas na construção da identidade infantil e coletiva, também fazer considerações sobre o impacto na saúde mental nesse recorte. Além disso, discute-se a diferença entre representação – como instrumento de poder e manutenção da hegemonia branca – e representatividade, como expressão da luta da população negra por protagonismo e construção digna de sua identidade, raça e cultura.